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domingo, 21 de março de 2010

O Adultério na obra “O Cortiço”, de Aluizio Azevedo

Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA
Centro de Letras e Artes
Curso: Letras
Disciplina: Literatura Brasileira I
Professora: Maria Edinete Tomás

Luiza Selma Freire Araújo
Estudante do 6º período do curso de letras da UVA


RESUMO

Este trabalho apresenta como principal objetivo analisar o adultério entre os personagens da obra O Cortiço, e relacioná – los com as concepções de Michel Foucault, abordando o conceito tradicional de casamento, e comparando – os com as relações conjugais da obra O Cortiço.

Palavras – chave: Realismo, Relação conjugal, Adultério.


Considerações Iniciais

Este artigo apresenta aspectos íntimos da vida conjugal dos personagens da obra O Cortiço, representativas das ações adúlteras da população carioca do século XIX, comparando-as com as idéias de Michel Foucault, em seu livro Historia da sexualidade.

Adultério, fato realista na obra “O Cortiço.”

A principio, antes de adentrar no tema propriamente dito, será feito um breve contexto do estilo de época, já que a temática deste estudo compreende um dos acontecimentos da população anônima e marginalizada da sociedade carioca do século XIX.
O Realismo procura mostrar a verdade, e uma das suas características é a verossimilhança, ou seja, o retrato fiel da realidade, fornecida através de uma interpretação da vida, e com uma linguagem mais próxima possível da realidade. Busca essa realidade através do retrato fiel de personagens, onde os incidentes do enredo decorrem do caráter dos mesmos. O Realismo retrata a vida de uma sociedade contemporânea, como no caso da obra em estudo, que é em um cortiço.

O contemporâneo é essencial ao temperamento realista, do mesmo modo que o romântico se volta para o passado ou para o futuro. Ele encara o presente nas minas, nos cortiços, nas cidades, nas fabricas, etc. (COUTINHO 2002, p. 10)

A obra O Cortiço mostra casos patológicos das camadas sociais do século XIX, retrata o íntimo da vulgaridade de uma sociedade, a essência de uma nação sem caráter e amoral, e suas perversões: a hipocrisia de João Romão, sendo agraciado com o titulo de Membro Honorário do Clube dos Abolicionistas, ao mesmo tempo em que noutra sala, esvaia – se sua companheira de todas as horas, a negra Bertoleza, sob o julgo do antigo dono que lhe viera recapturar, depois de ter sido informado pelo próprio João Romão, que queria livrar – se dela; Jerônimo homem casado que comete adultério ao manter um romance com Rita Baiana, e depois cometer um crime contra Firmo o namorado de sua amante; Pombinha que era a flor do cortiço e depois viera a se prostituir:

A fim de fundamentar suas teses, os realistas escolhiam os personagens nas varias camadas e grupos sociais do tempo. Como selecionavam casos patológicos para atestar a decadência da sociedade contemporânea [...], (MOISES 1994, p. 167).

O livro O Cortiço encara o presente, nas relações conjugais, focalizando o adultério, que é a temática da obra em estudo, e que é presente em todos os casos da obra.
O conceito que se tem sobre casamento vem evoluindo e se transformando de acordo com o tempo, é só analisarmos as relações conjugais de antigamente e compará – las com as de hoje que notamos a diferença, ou pelo menos antigamente as pessoas escondiam melhor as relações extramatrimoniais de maneira que elas não viessem à tona, pois o adultério, que antes era um assunto polêmico, hoje é um assunto encarado com a maior simplicidade, enquanto antigamente poderia ser corrigido e até reparado.
“Em sua forma antiga, o casamento só continha efeito de Status: transmissão do nome, constituição de herdeiro, organização de um sistema de alianças, junção de fortunas [...],” ( FOUCAULT 1985, p.81). Mas olhando de um modo geral os casamentos se dão através de dois pontos de vista: de um lado um físico e sexual e de outro o racional e social, que é a partilha da existência, a afeição e a amizade que devem existir entre um casal. Este segundo ponto de vista sobre casamento é inexistente entre os casais da obra em análise. No início Jerônimo até que se enquadrava nesta idéia, mas com o passar do tempo tornou – se perverso, ao enfeitiçar – se pela luxuriosa Rita Baiana.
Diante da concepção de Foucault de que o casamento só continha efeito de status, e de que o adultério tinha como definição os danos aos direitos do marido, percebemos que na obra O Cortiço acontece algo muito semelhante, pois Miranda mesmo sabendo que sua mulher o traía continuava com ela, escondendo de todos que sua esposa mantinha relações sexuais fora do casamento, já que ele tinha que fingir e mostrar para a sociedade que compartilhava muito bem a sua vida com a mulher, como mostra o seguinte trecho:

Odiavam – se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a pouco foi se transformando em repugnância completa. O nascimento de Zulmira veio agravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez de servir de elo entre os dois infelizes, foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre eles. Estela amava – a menos do que lhe pedia o instinto materno por supô-la filha do marido, e este a detestava por que tinha convicção de não ser seu pai. Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pai, a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludíbrio materno, e o Miranda estendia até à inocentizinha o ódio que sustentava contra a esposa. (O Cortiço 2002, p. 8 e 10).

Mesmo assim, Miranda tinha que estar junto da esposa, mesmo odiando – a, desprezando – a, já que dependia dela para obtenção de seus objetivos.
“Tradicionalmente”, o vinculo entre o ato sexual e o casamento se estabelece a partir e em função da necessidade de ter uma descendência”.( FOUCAULT 1985, p. 169), se esse fim que era a procriação não fosse realizado o casamento poderia até acabar.
O prazer sexual não poderia ser admitido fora do casamento, o que não acontece entre as relações conjugais da obra em análise. E nem mesmo poderia acontecer com o indivíduo que não fosse casado, pois o seu único objetivo era a procriação, que deveria ser legítima, daí não serem admitidas as relações extramatrimoniais.
Nas culturas modernas “os prazeres legítimos: são aqueles que os parceiros realizam juntos no casamento e para o nascimento dos filhos” ( MOSONIUS apud. FOUCAULT 1985, p. 196), que se fossem procurados em outras formas como fora do casamento, são vergonhosas e contra as regras conjugais, visto que as atividades sexuais são exercícios legítimos que só podem se estabelecer dentro da conjugalidade.
Os personagens do livro O Cortiço se contradizem a essas concepções, pois eles preferiam os prazeres fora do casamento, na forma de adultério, como e o caso de Leocádia, Jerônimo e Estela. Sendo assim, diante das concepções de Mosonius, esses personagens da obra deveriam ser punidos, por cometerem esse ato errado, que é o adultério. O erro deveria ser reparado e corrigido, já que o prazer sexual é uma forma legítima do casamento, e que só foi aceito para regular, num quadro estrito seu uso necessário. Dessa maneira, o casamento torna – se uma forma de produzir uma decência legítima para o ato sexual, que produzido fora da relação matrimonial é considerado uma sujeira, um “desregramento.”
Outro exemplo de adultério na obra em estudo é o caso de Jerônimo, um português, descrito como homem perseverante, observador, dotado de certa habilidade, homem bem disposto e cheio de virtudes, homem comportado e que começa a ser respeitado tanto pelos trabalhadores que lhes eram subalternos na pedreira de João Romão, quanto pelos moradores. Após certo convívio e ter se apaixonado por Rita Baiana, decide abandonar a mulher e a filha para ir morar com ela, vai, pouco a pouco na voz do narrador de Aluísio Azevedo, “abrasileirando–se,” fazendo–se preguiçoso, amigo das axtravagâncias e dos abusos,luxurioso e ciumento.
De um modo geral, um dos motivos que pode levar o esposo a cometer o adultério, é se ele tiver um pensamento tradicional, pois assim irá procurar em outras mulheres, fora do casamento, maneiras mais ardentes e luxuriosas de sentir prazer sexual, por pensar que a relação tem que ser diferente entre amantes, pois:

Tratar a própria esposa como uma ama que no casamento é preciso conduzir – se como amante, e comportar – se muito ardentemente com a própria mulher é trata – la como adúltera, (FOUCAULT, 1985, p. 178)


Talvez seja essas idéias citadas a cima que levaram Jerônimo a cometer o adultério, pois sua esposa era uma mulher tímida recatada, comportada e sem malícias. Ele encontrou em Rita Baiana, completamente o oposto de sua mulher, uma morena faceira, luxuriosa e muito maliciosa, como mostra a obra:

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante. (O Cortiço 2002, p. 23)


Outro caso de adultério presente na obra é a relação sexual momentânea que Leocádia tem com Henriquinho, estudante de Direito, em troca de um coelho, enquanto casada com Bruno. O marido de Leocádia a pega em flagrante em plena traição:

Os dois se encontraram, e Leocádia foi logo sacando fora a saia de lã grossa. O estudante atirou – se a ela, sôfrego, sentido – lhe a frescura de sua carne de lavadeira. Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada. (O Cortiço 2002, p. 26).

A partir do trecho acima notamos que foi por causa de Henriquinho, que Leocádia e Bruno se separaram, numa sena típica de casados que se descobrem em pleno adultério; o que faz com que mais tarde Bruno procurasse a mulher através dos favores de Pombinha, para que lhe escrevesse uma carta a Leocádia, nos fornecendo a oportunidade para fazermos, num dos momentos mais sóbrios da Literatura Brasileira, uma longa reflexão a respeito do poder sutíl do elemento feminino sobre a vaidosa e fanfarrona brutalidade masculina, como podemos ver no seguinte trecho:

Encarando as lagrimas de Bruno, compreendeu e avaliou a franqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea. (O Cortiço 2002)

Seguindo essa mesma linha de raciocínio que a fêmea têm poder sobre o macho, encontramos também em Miranda essa submissão. O domínio sexual que a mulher tem sobre o homem, ao ponto dele perder o próprio orgulho, deixando – se dominar pela sedução feminina, podemos perceber isso no momento em que Miranda se deixa levar pela luxúria e cai nos braços de Estela, mostrando que” o homem e forte para desejar, e fraco para resistir ao desejo”:

Estela recebeu desta vez como a primeira, fingindo que não acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana sem se poder conter, saltou – lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou, deveras escandalizado sauguendo – se brusco no estremunhamento de sonâmbulo acordado com violência. A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; passou – lhe rápido as pernas por cima e, guardando – se lhe ao corpo, cegou – o com um a metralhado de beijos. ( O Cortiço 2002)



Considerações Finais


A partir do comportamento de Jerônimo, Leocádia, Estela, e a maioria dos personagens da obra, diriamos como Foucault que “os indivíduos deveriam viver apenas como os animais, unir-se e logo separar – se “, pois quase todos os personagens da obra cometem adultério, e trocam com muita frequência de parceiros.





Referências Bibliográficas


FOUCAULT, Michel. Historia da Sexualidade, 3: O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Edições Graal.
AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 1º Ed – São Paulo: Rideel,2000.
COUTINHO, Eduardo de Faria. A Literatura no Brasil. 6 ed.rev.e atual.3. São Paulo: Global, 2002.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 30 ed. São Paulo: Cultrix, 1994
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